Opinião Ferramentas 3 min de leitura

Há muita IA e pouco que sirva ao meio jurídico

Opinião. O problema não é acompanhar tudo, é saber o que pode esperar.

Planos translúcidos em tons de verde e ciano convergindo para o centro, capa abstrata.

Na segunda-feira eu abri o celular e já tinha três nomes de ferramenta que na sexta eu ainda não tinha visto. No grupo, alguém mandou o link de um chat novo, e um colega perguntava se podia colar trecho do processo nele, só que o aplicativo já tinha mudado de nome. No mesmo dia chegou um ato do CNJ sobre o que o juiz pode usar de inteligência artificial.

Tem muita notícia sobre tudo, e pouco que fale do que é de fato bom para quem atua no direito. Cada lançamento chega vestido de obrigação, como se atrasar um teste fosse atrasar o trabalho. Quase nada disso muda o que se escreve, a audiência, o sigilo ou o que o tribunal passou a admitir.

Quem está no trabalho não está perdido por falta de notícia, está perdido nessa urgência falsa.

Dois jeitos de se afogar

Quem acompanha inteligência artificial todo dia se perde na lista do que mudou. Abre o celular e já tem nome novo, botão novo, um vocabulário que na semana passada era outro, e dá a impressão de que o trabalho útil é acompanhar o produto, não despachar o que tem prazo.

Quem não vive disso sofre o contrário. Ou ignora tudo e fica na mão quando o juízo, a parte ou o colega já usam alguma ferramenta, ou adota a primeira que alguém mandou no grupo, sem perguntar onde o dado vai parar, se o texto sai com cara de chat, se aquilo serve para autos e PDF ou só para demonstração.

O miolo que falta

A imprensa de tecnologia fala com quem constrói produto. A imprensa jurídica, quando fala de inteligência artificial, cai em ética, em recomendação da OAB, em resolução do CNJ. Isso importa, mas as duas deixam de fora o que decide o expediente.

Sai ferramenta demais, e o meio jurídico continua seco no que interessa no expediente.

Deixar coisa de fora

Estreitar a perspectiva é deixar coisa de fora, sem culpa. Querer cobrir tudo é o que deixa o leitor perdido. Vamos perder lançamento, porque o critério é relevância para o trabalho, não o ranking da semana.

A pergunta pode ser uma só. Serve para escrever, para pesquisar, para dado confidencial, ou o tribunal passou a usar? Se não for nenhum, é notícia de produto.

Não é preciso acompanhar tudo que sai. É preciso um recorte honesto do que sobrevive à segunda-feira no trabalho.

Fonte: Opinião do autor. Não é parecer jurídico.